8 de fevereiro de 2009

Reféns do pensamento: compreendendo e superando o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)

Há pouco tempo atrás, em uma reportagem, Roberto Carlos se dizia vítima doTranstorno Obsessivo-Compulsivo. Este famoso cantor considerava suas muitas manias apenas como superstições até que as mesmas começaram a incomodá-lo.


“Teve uma época da minha vida em que eu não queria cantar certo tipo de música nem falar algumas palavras. Eu pensava que era superstição. Hoje, graças à ciência, descobri que não sou tão supersticioso, eu tenho TOC. Agora estou fazendo tratamento e pode ser que volte a cantar essa música.”


Quando afinal uma mania pode ser considerada doença? Todos nós temos nossas pequenas manias e superstições e elas nos ajudam a lidar melhor com nosso cotidiano. Verificar se o gás está fechado antes de viajar, trancar as portas antes de sair de casa, desligar o celular para ir ao cinema e lavar a mão antes de comer são exemplos de comportamentos que ajudam a nos organizar e a prevenir problemas. A verdade é que ser um pouco preocupado e ansioso é perfeitamente normal.


A história muda quando esses comportamentos se tornam repetitivos e acompanhados de pensamentos intrusivos e obsessivos que impedem a pessoa de viver plenamente sua vida. Estes sintomas são característicos do Transtorno obsessivo‑compulsivo (TOC), e como o próprio nome diz, o TOC é caracterizado pela presença de obsessões e compulsões.


Chamamos de obsessões pensamentos repetitivos, de conteúdo aversivo, que surgem de forma insistente e indesejada (intrusivos) e são acompanhados de grande aflição e angústia. Os pensamentos obsessivos, na grande maioria das vezes, parecem absurdos e irreais, porém são incontroláveis. Quem sofre com esses pensamentos obsessivos sabe o quanto eles são desproporcionais à realidade, mas ainda assim desenvolvem comportamentos repetitivos (compulsões) na tentativa de evitar que as conseqüências descritas pelos pensamentos de fato ocorram, e de aliviar o estado ansioso em que se encontram. A realização das compulsões, também conhecidas como manias, “anula” a angústia e a ansiedade trazida pelos pensamentos obsessivos.


Infelizmente, os rituais a que os pacientes se submetem como forma de afastar as obsessões estimulam ainda mais esses pensamentos. O contrário também acontece e se o paciente tenta resistir e não executar suas compulsões, as obsessões ficam mais fortes. É um círculo vicioso: as obsessões desencadeiam compulsões que reforçam as obsessões. Frequentemente os pacientes relatam que os rituais compulsivos não guardam nenhuma relação lógica com a obsessão que os origina.


Algumas pesquisas revelam que o TOC atinge cerca de 3% da população, e aflige homens, mulheres e até mesmo crianças. Muitas vezes o transtorno evolui de forma grave, a ponto do individuo não conseguir desempenhar bem suas funções no trabalho e na escola, acompanhado de sérios prejuízos em sua vida afetiva e familiar. Os efeitos do TOC podem ser devastadores. A grande maioria dos obsessivo-compulsivos sofrem de baixa auto-estima e baixa autoconfiança. É muito freqüente o transtorno vir acompanhado de outros distúrbios psiquiátricos, como a depressão, dependência do álcool e fobias específicas. Os pacientes com TOC não carreguem apenas a angústia provocada pela doença em si: muitos sofrem com a vergonha que sentem da família e dos amigos. Este é um dos motivos que levam os doentes a camuflar os sintomas e demorar a procurar ajuda. Estudos indicam que os pacientes de TOC levam cerca de 8 a 10 anos após o surgimento dos primeiros sintomas para procurar ajuda profissional.


Causas

As causas do TOC ainda não são claras. Existe um equilíbrio delicado entre componente hereditário, bioquímica cerebral, história de vida e traços de personalidade.


Pesquisas indicam que fatores genéticos podem alterar a bioquímica cerebral. No cérebro do paciente de TOC há um desequilíbrio neuroquímico envolvendo principalmente o neurotransmissor serotonina. A serotonina está associada às sensações de prazer e bem-estar. Por isso o tratamento medicamentoso do TOC com antidepressivos, receitados por um psiquiatra, ajuda a manter um nível saudável de serotonina no cérebro e é extremamente importante no tratamento do TOC.


Existe ainda um componente hereditário importante já que é freqüente a incidência do TOC em membros de uma mesma família. Por outro lado, a história de vida e de aprendizagem do indivíduo com TOC tem um papel importante no desenvolvimento do transtorno: pessoas ansiosas, perfeccionistas, que têm o desejo de ter tudo sob controle e um senso exagerado de responsabilidade e de dever possuem os traços de personalidade que colocam uma pessoa sob o risco de desenvolver TOC.



Tratamento


A Terapia Comportamental para o TOC inicia-se com a instrução e a educação do paciente acerca de seu problema. A clareza dos sintomas, a explicação psicológica para o TOC e o conhecimento sobre as etapas de tratamento, motivam o paciente a persistir pelos momentos mais difíceis da terapia. Durante o processo o paciente com TOC, junto com seu terapeuta, compreenderá a função dos seus pensamentos obsessivos e aprenderá a lidar com suas compulsões.


Atualmente, a opção de tratamento para o TOC que traz os melhores e mais duradouros resultados são aqueles que combinam o uso de medicamentos e a Terapia Comportamental. Sabe-se que a combinação de antidepressivos e ansiolíticos com Terapia Comportamental podem reduzir os sintomas em até 80%.


Portanto, deve existir, para um tratamento de sucesso, a parceria entre o médico Psiquiatra e o Psicólogo Comportamental. O uso de medicamento é extremamente importante, pois visa, junto com a psicoterapia Comportamental, corrigir a carência de serotonina no cérebro.


Felizmente, as mudanças alcançadas através da Terapia Comportamental são profundas e duradouras: os benefícios mantêm-se por um longo tempo, mesmo após a retirada dos medicamentos. Os pacientes acometidos com o TOC aprendem ao longo do processo terapêutico a lidar melhor com situações que geram ansiedade e que desencadeiam crises obsessiva, assim como aprendem a entender e lidar com a ansiedade como um sentimento normal, saudável e essencial para o equilíbrio emocional.

Desirée Cassado


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